Que com este livro singular, em muito aspectos surpreendente, o Visconde de Vilarinho de São Romão tem direito a não ser mais um autor omitido na história da literatura portuguesa, eis o que para mim é ponto assente. Tanto como o considerá-lo, no Neoclassicismo que tivemos (não medíocre assim como dizeis, senhores historiadores da literatura; mesmo na poesia bem superior à do Romantismo), em sua última geração, um dos melhores prosadores. Mas, claro está, as histórias da literatura portuguesa não sou eu quem as escreve, não mando nelas -- e, se mandasse, era para acabar com isso de copiarem Teófilo e depois virem dizer que ele fez mal, quando foi, até hoje, o único (com erros e tudo) que não incorreu, por exemplo, em vícios omissivo-excomungantes, seja à conta de que vaticanos, inquisitoriais ou de asilos psiquiátrios.
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sábado, 21 de março de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira
Mas ponhamos isto de parte que talvez pouco interesse para aqui. Já se sabe, aliás, que uma mudança no estilo literário ou artístico só se instala e desenvolve quando as circunstâncias do meio, o novo terreno de florescimento, a propiciam. Assim, em Portugal, o Romantismo com a revolução liberal vitoriosa, como já antes o Neoclassicismo sob o Marquês e na sequência do terramoto, sobretudo do banimento dos Jesuítas, seguros esteios do Barroco com seus jogos cultistas e conceptistas já então esgotados de todo conteúdo. (Neste caso, malgré o mesmo Marquês, que, partidário embora do progresso técnico e científico, de modo algum morria de amores pela literatura, nem bem pelas artes, considerada menos úteis.)
sábado, 7 de março de 2009
Prefácio a Historias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira
Voltando ao Romantismo, que ainda não tínhamos senão como algo vaga vontade latente em 134-1835, é de acentuar que a este tempo Garrett não dera nem o passo estilístico nem bem o do fundo por se libertar da disciplina neo-clássica. Além do do mesmo Garrett, desde o prefácio do Catão, lembro, ao acaso, um não dispiciendo, assinado com as iniciais G.M. (de quem?) e saído, pouco antes da libertação de Lisboa, no .º 8 do Museu Literário, Útil e Divertido (assim mesmo, ao gosto do tempo...): «Da Poesia Clássica e da Romântica». Como se sabe, também Herculano, em Outubro do ano seguinte, se ocupou disto no n.º 1 do Repositório Literário da Sociedade de Ciências Médicas e de Literatura do Porto; mas, entrando na prática criativa, a «Elegia de Um Soldado», que um mês depois aí publica, tem ainda acentuado sabor neoclássico. Quanto às suas ficções, elas são, como se conhece, mais tardias, nenhuma delas, as depois recolhidas nas Lendas e Narrativas, anterior ao Outono de 1837. De romântico, o que por enquanto se ia podendo ler em português eram traduções, quase todas vindas de Paris e na maioria feitas por Caetano Lopes de Moura: de Chateaubriand desde 1820, com Átala) da Staël,de Walter Scott, de Charles Nodier, etc. Nosso, mesmo nada.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira
Realmente, em 1825, como ainda dez anos depois, mesmo escrevendo-se lá fora, como sucedia ao exilado Garrett, o Romantismo não era ainda possível para nós, não estávamos maduros, digamos, para ele nos ser prática. Como estética de grupo, ou de voz isolada, aqui faltava-lhe, por enquanto, o que só a revolução liberal vitoriosa pôde proporcionar: uma verdadeira atmosfera de liberdade. Do mesmo modo que também necessitavam dela obras neo-clássicas como a do Visconde de Vilarinho de São Romão, de outro modo condenadas a manuscritas e aferrolhadas em bem seguras gavetas, ou à circulação anónima, por cópias. Filinto, se pôde escrever e publicar livremente tudo o que escrevera, foi à custa de estar longe, amargando o exílio.
domingo, 25 de janeiro de 2009
Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira
Escritas entre talvez 1828 e meados de 1833, publicadas em 1834 (com segunda edição no ano seguinte), as Histórias de Meninos não são a obra tardia que estas datas podem sugerir aos que, desprevenidamente, aceitam a que os historiadores da literatura vêm repetindo como aquela em que começaria o nosso Romantismo: 1825, com a publicação do Camões, de Garrett. No poema do autor futuro das Viagens na Minha Terra (obra esta que, sim, é já um marco de outra prosa) o que, na verdade, há de romântico, melhor, romanesco não chega a ser bem um sinal de mudança, do início duma corrente nova: o seu estilo permanecia neoclássico, até mais neoclássico que o de alguns pré-românticos.
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