Mostrar mensagens com a etiqueta Contos Exemplares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos Exemplares. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 17 de novembro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

--Voltou o nevoeiro -- disse alguém.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

A Lua já tinha desaparecido e o nevoeiro, aéreo e branco, começava a subir do mar e entrava pela janela aberta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Era tarde. E o brilho da hora tardia deslizava docemente em roda das mãos e dos copos sobre a mesa polida.

domingo, 11 de outubro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Lá fora as lâmpadas das ruas já se tinham apagado havia muito tempo.

domingo, 27 de setembro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu estava sentada em frente dele, do outro lado da pequena mesa. Ele esteve um longo tempo calado. Depois debruçou-se sobre a mesa e disse:
-- Ouve:
There is a sea,
A far and distant sea
Beyond the farthest line,
Where all my ships that went astray,
Where all my dreams of yesterday
Are mine.

sábado, 19 de setembro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

No entanto ele não se confundia com um deus. Nos deuses ser e existir estão unidos. Nele a vida vivida nem sequer era a serva do ser, nem sequer era o chão que o ser pisava, mas apenas acaso sem nexo, desencontro, acidente sem forma e sem verdade, acidente desprezado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

E, à medida que ele ia falando, a imagem que nascia das suas palavras ia-se tornando interior à alma daqueles que o escutavam, como um mito. Ele era como um limite, como um marco que dissesse:
«Daqui em diante o mar não é mais navegável.»

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

A sua sensibilidade era tão perfeita que até na própria madeira da mesa a sua mão pousava com ternura. Enquanto falava, abria espantosamente os seus olhos, que eram azuis como o azul duma chama de álcool. E o seu olhar era desmedido e impessoal como se para além de nós ele olhasse outra coisa. Talvez:
A memória longínqua duma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos

domingo, 30 de agosto de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

E o homem que se tinha vindo sentar junto de nós falava misturando as suas palavras com o tempo, com a noite, com o barulho do mar, com o respirar da brisa nas folhagens. E das suas palavras nascia uma grande imagem que se ia abrindo e desdobrando em inumeráveis espaços.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Quase toda a gente se tinha ido embora, e o vazio pousava docemente nas mesas e nas cadeiras, enquanto a noite, com a grande sombra das suas árvores atravessada pelo rumor do mar, entrava pela janela aberta.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

A hora tardia dilatava, multiplicava e isolava todas as coisas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Era como se ele tivesse querido guardar o seu ser à margem do vivido, por não haver na vida acto nenhum onde o ser pudesse ser cumprido e a existência concreta fosse apenas deturpação, falsificação, profanação.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

E era difícil dizer de que tempo ele vinha; pois dos personagens das histórias dum tempo antigo ele tinha a voz, o olhar e os gestos, mas não o destino, nem a vida vivida. Era como se ele tivesse rejeitado todo o destino, toda a vida vivida, como uma coisa alheia, exterior e falsa, e lhe bastasse aquele momento, aquele bar, aquela mesa, aquela conversa, aquele copo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

E já éramos poucos e apagava-se a luz da sala de baile, o hall estava deserto, na sala de jogo só já quatro jogadores esperavam a morte e quando entrávamos no bar um homem, sempre o mesmo, voltava-se no alto banco e, trazendo o seu corpo, vinha sentar-se connosco numa mesa.

sábado, 20 de junho de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Estávamos à espera.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

PRAIA - Sophia de Mello Breyner Andresen

Encostado à ombreira duma porta, um homem solitário, alto e magro como uma árvore no Inverno, tirou o relógio do bolso e viu as horas. Depois guardou o relógio depressa como se tivesse vergonha do tempo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Praia - Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque a espera, a espera das coisas fantásticas, visíveis e reais, a espera das coisas destinadas, prometidas, pressentidas, ia-se tornando quase lucidamente alucinada.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Praia - Sophia de Mello Breyner Andresen

Os músicos guardavam os instrumentos e fechavam o piano. Escuros e magros, desciam as escadas do palco e depois desapareciam, suponho que por um alçapão, pois nunca os vi sair por nenhuma porta. Ou talvez se diluíssem no ar. Ou talvez fossem deuses da Pérsia e viessem de noite, num tapete mágico, para contemplarem, disfarçados de músicoa, o fim da sensibilidade do Ocidente.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Praia - Sophia de Mello Breyner Andresen

E as pessoas iam-se embora e as salas iam ficando vazias, passavam no ar interrogação e silêncio, como se qualquer coisa, qualquer coisa obscuramente desejada e prometida, não tivesse acontecido.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Praia - Sophia de Mello Breyner Andresen

E à medida que a noite ia avançando, à medida que quase toda a gente se ia indo embora, à medida que se ia fazendo tarde, a espera ia-se tornando quase consciente, quase visível. Dir-se-ia que o tempo perdido ia surgir e ser tocado.

Acerca de mim