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segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Xaile de Maria Salomé - Bulhão Pato

Tive o seu retrato, que, infelizmente, um acaso destruiu, há três anos, numa mal agoirada mudança. Era em papel e feito por Augusto de Belvedere, um português emigrado, que se hospedou muitos meses em nossa casa. (2)

(2) O Xaile de Maria Salomé foi publicado no jornal A Arte. Muito tempo depois recebi, de letra desconhecida, uma carta. Era de Augusto de Belvedere, que tinha visto o meu artigo e me escrevia, narrando-me alguns passos da sua vida. Tinha tomado aquele nome para fugir a perseguições, quando se estabeleceu o governo constitucional. O seu verdadeiro nome era José Vicente de Sales. Fora pensionado em Roma, para estudar pintura, por D. João VI e depois por D. Miguel de Bragança. O pobre velho terminava a extensa carta por estas palavras: «Vivo hoje na cidade de Braga, minha pátria nativa, precisando do mais necessário à vida e com 84 anos.» Um ano depois, passando por Braga, fui visitá-lo. Estava ainda de boa aparência e comoveu-se muito, lembrando-se que me havia retratado quando eu tinha quatro anos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Liberal que já era e conhecido como tal, Teixeira Girão foi, na sequência da revolução de 1820, eleito por Trás-os-Montes deputado às Cortes Constituintes. Embora moderado nas suas intervenções, em 1823, sobrevindo a «viradeira», foram prendê-lo a Vilarinho e deportaram-no, na companhia do conterrâneo Manuel Gonçalves de Miranda, também deputado constituinte, para o Algarve. Em 1826, já livre, com a subida de D. Pedro IV ao trono, foi nomeado provedor do Papel Selado e de novo eleito deputado. Mas logo em 1828, com D. Miguel, voltaram as perseguições, e teve de se esconder em Lisboa, para não ir parar ao Limoeiro e a S. Julião da Barra. E foram estes, agora, os cinco anos e dois meses que passou homiziado, quase sempre escondido num desvão de telhado, período todavia o mais fecundo do seu trabalho intelectual, a avaliar pelas obras entretanto escritas e publicadas de 1833 a 1835: além das Histórias de Meninos, a Memória sobre os Pesos e Medidas de Portugal (1833), a já referida sobre a Companhia dos Vinhos (1833), outra sobre a economia do combustível (1834), A Química Ensinada em 26 Lições (1834), Economia Rural e Doméstica, ou Ensaio sobre os Gados Lanígero e Cornígero (2 volumes, 1835), e ainda, tornando, como tradutor, à poesia a que sacrificara antes, a Tradução Livre ou Imitação do Lutrin, ou Estante do Coro, de Boileau (1834). Acrescendo desenhos e pinturas, que nunca deu a conhecer publicamente, mas que fazia desde o tempo em que recebeu lições, em Mateus, de Correia de Matos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

O seu a seu dono, não calhou a mim, mas a Vitorino Nemésio, a sorte do achamento. E fora, como me contou, que indo por aí uma tarde, e parando diante da mercadoria de um alfarrabista da rua, lhe aconteceu avistar no estendal um título que achou saboroso: Histórias de Meninos, para Quem não For Criança. Abaixou-se, pegou no livro, examinou-o a folhear, perguntou ao vendedor (talvez o seu amigo Evaristo, que antes tivera loja na Travessa da Queimada) quanto era. Sendo o preço razoável, ficou com ele. Já em casa, sentado a lê-lo, não tardou que desse por belamente aplicados os vinte ou pouco mais escudos do negócio. Pelo menos lá estava (não só!), no livro, cujo autor, nome omisso, se apresentava como um homiziado que sofreu o martírio de estar escondido cinco anos e dois meses» (o tempo da dura do reinado caceteiro desse que uma velha tia minha, pedrista assanhada, filha de um dos Mindelo com Torre e Espada ganha nas lides do cerco do Porto, chamava o Miguel da Carlota), lá estava, dizia, uma pequena obra-prima de humor: o conto do frade que se julgou prenhe.

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