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terça-feira, 24 de março de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

E pronto (antes que isto tome por onde não deve...), vamos às Histórias de Meninos, estas que já tiveram o condão de deliciar o requintado e desprevenido gosto de Vitorino Nemésio. Com a esperança, minha, pelo menos, de virem a ter, agora reeditadas, mais leitores como ele.


PEDRO DA SILVEIRA


Visconde de Vilarinho de São Romão, Histórias de Meninos -- Para Quem não For Criança, Prefácio de Pedro da Silveira, Lisboa, Perspectivas & Realidades e Biblioteca Nacional, 1985, p. VII-XVI.

sábado, 21 de março de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Que com este livro singular, em muito aspectos surpreendente, o Visconde de Vilarinho de São Romão tem direito a não ser mais um autor omitido na história da literatura portuguesa, eis o que para mim é ponto assente. Tanto como o considerá-lo, no Neoclassicismo que tivemos (não medíocre assim como dizeis, senhores historiadores da literatura; mesmo na poesia bem superior à do Romantismo), em sua última geração, um dos melhores prosadores. Mas, claro está, as histórias da literatura portuguesa não sou eu quem as escreve, não mando nelas -- e, se mandasse, era para acabar com isso de copiarem Teófilo e depois virem dizer que ele fez mal, quando foi, até hoje, o único (com erros e tudo) que não incorreu, por exemplo, em vícios omissivo-excomungantes, seja à conta de que vaticanos, inquisitoriais ou de asilos psiquiátrios.

terça-feira, 10 de março de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Mas ponhamos isto de parte que talvez pouco interesse para aqui. Já se sabe, aliás, que uma mudança no estilo literário ou artístico só se instala e desenvolve quando as circunstâncias do meio, o novo terreno de florescimento, a propiciam. Assim, em Portugal, o Romantismo com a revolução liberal vitoriosa, como já antes o Neoclassicismo sob o Marquês e na sequência do terramoto, sobretudo do banimento dos Jesuítas, seguros esteios do Barroco com seus jogos cultistas e conceptistas já então esgotados de todo conteúdo. (Neste caso, malgré o mesmo Marquês, que, partidário embora do progresso técnico e científico, de modo algum morria de amores pela literatura, nem bem pelas artes, considerada menos úteis.)

sábado, 7 de março de 2009

Prefácio a Historias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Voltando ao Romantismo, que ainda não tínhamos senão como algo vaga vontade latente em 134-1835, é de acentuar que a este tempo Garrett não dera nem o passo estilístico nem bem o do fundo por se libertar da disciplina neo-clássica. Além do do mesmo Garrett, desde o prefácio do Catão, lembro, ao acaso, um não dispiciendo, assinado com as iniciais G.M. (de quem?) e saído, pouco antes da libertação de Lisboa, no .º 8 do Museu Literário, Útil e Divertido (assim mesmo, ao gosto do tempo...): «Da Poesia Clássica e da Romântica». Como se sabe, também Herculano, em Outubro do ano seguinte, se ocupou disto no n.º 1 do Repositório Literário da Sociedade de Ciências Médicas e de Literatura do Porto; mas, entrando na prática criativa, a «Elegia de Um Soldado», que um mês depois aí publica, tem ainda acentuado sabor neoclássico. Quanto às suas ficções, elas são, como se conhece, mais tardias, nenhuma delas, as depois recolhidas nas Lendas e Narrativas, anterior ao Outono de 1837. De romântico, o que por enquanto se ia podendo ler em português eram traduções, quase todas vindas de Paris e na maioria feitas por Caetano Lopes de Moura: de Chateaubriand desde 1820, com Átala) da Staël,de Walter Scott, de Charles Nodier, etc. Nosso, mesmo nada.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Não vou, obviamente, meter-me neste prefácio, porque prefácio contendo-se o mais possível na apresentação do autor, à crítica das Histórias de Meninos, seja estilística, seja do conteúdo. Aos críticos é que caberá fazê-la, revalorizando este livro, que, no meu entender, tem feito falta ao panorama da literatura portuguesa dos anos de transição em que [foi] escrito e pela primeira vez publicado. O que não quer dizer, todavia, que de todo me furte a, mais que avaliá-lo, situá-lo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Escreveu-o outro transmontano, de Murça, Domingos Monteiro [de Albuquerque Amaral] (1744-1830), além de poeta, com o melhor de sua obra inédito, magistrado que ocupou, desde o tempo de Pombal, lugares vários de muito destaque. Foi amigo de Filinto -- um dos do Grupo da Ribeira das Naus -- e, como não poderia deixar de ser, dos beliscados n'Os Burros, do rabioso Padre Lagosta.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão

Mas o anticlericalismo ou antifradismo, nem gratuito nem demagógico, de Vilarinho de São Romão, que lhe deu algumas das suas melhores narrativas, não foi ele o primeiro a pô-lo em literatura entre nós. Lembremo-nos de Filinto, de tanta sátira metrificada de outros neo-clássicos, umas impressas, a maior parte jazendo até hoje inéditas. Por dar um exemplo, recorro a este soneto, achado numa miscelânea de 1813, «Aos Que São Religiosos por Força da Vontade dos Pais»:
Anda poupando o sórdido avarento,
Sem à boca ou vestido haver respeito,
Té se julga honrado e satisfeito
Se embestigou um filho num convento.
Entra o moço com grão contentamento
Um ano a trabalhar por ser direito,
no fim faz-se uma festa, e frade aceito,
Começa um novo estudo bolorento:
Uma filosofia tola e escura,
Uma vã teologia, e isto acabado
Entra a torpe ambição da prelatura.
Ele, e o pai, o reino têm roubado,
E esta capa de Deus e da clausura
De inúteis mandriões nos tem minado! (1)
(1) Poesias Particulares, de Diversos Autores. Anno MDCCCXIII, p. 142. Biblioteca Nacional, Res. Cod. 8582.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, de Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Histórias de Meninos, para Quem não For Criança: um título que logo em si tem que se lhe diga. O autor, na verdade, não parece alheio à lição popular de contar, podendo entender-se que o faz seguindo o modelo das histórias que contavam lá para as suas bandas a meninos, mas dirigindo o ensino, a moral destas, ao entendimento dos adultos. E aí estão os contos de frades e freiras, ou candidatas a freiras, como no primeiro do livro, e alguns padres velhacos modelados por tantos que Teixeira Girão conheceria nos seus Trás-os-Montes. A outra edição, facilmente detectável, é a de Voltaire, cuja obra foi mais lida em Portugal logo que ia saindo do que pode pensar-se. A ironia, o humor de Candide, influíram as Histórias de Meninos quase tanto como a memória que o nosso autor guardava dos contos-facécias ou de ardis por si ouvidos em criança.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Realmente, em 1825, como ainda dez anos depois, mesmo escrevendo-se lá fora, como sucedia ao exilado Garrett, o Romantismo não era ainda possível para nós, não estávamos maduros, digamos, para ele nos ser prática. Como estética de grupo, ou de voz isolada, aqui faltava-lhe, por enquanto, o que só a revolução liberal vitoriosa pôde proporcionar: uma verdadeira atmosfera de liberdade. Do mesmo modo que também necessitavam dela obras neo-clássicas como a do Visconde de Vilarinho de São Romão, de outro modo condenadas a manuscritas e aferrolhadas em bem seguras gavetas, ou à circulação anónima, por cópias. Filinto, se pôde escrever e publicar livremente tudo o que escrevera, foi à custa de estar longe, amargando o exílio.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Escritas entre talvez 1828 e meados de 1833, publicadas em 1834 (com segunda edição no ano seguinte), as Histórias de Meninos não são a obra tardia que estas datas podem sugerir aos que, desprevenidamente, aceitam a que os historiadores da literatura vêm repetindo como aquela em que começaria o nosso Romantismo: 1825, com a publicação do Camões, de Garrett. No poema do autor futuro das Viagens na Minha Terra (obra esta que, sim, é já um marco de outra prosa) o que, na verdade, há de romântico, melhor, romanesco não chega a ser bem um sinal de mudança, do início duma corrente nova: o seu estilo permanecia neoclássico, até mais neoclássico que o de alguns pré-românticos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

A acção pública de Vilarinho de São Romão, em que não faltaram polémicas defendendo os seus pontos de vista quanto ao desenvolvimento económico do País, que sempre quis livre de tutelas estrangeiras, durou até 1846, quando o governo ditatorial de Costa Cabral o demitiu, mais uma vez, de todos os cargos, em que bem servira e nunca se servira. Então, repugnado, retirou-se para a aldeia, a ser outra vez lavrador. Certo, continuou a escrever, principalmente para jornais agrícolas, e em 1857 ainda apresentou à Academia, que a fez imprimir, como já antes ao seu Manual Prático da Cultura das Batatas e do seu Uso na Economia Doméstica (1845), uma Memória sobre a Epioenomia, ou Moléstia Geral das Vinhas. Sentia-se cansado, a não poder mais suportar incompreensões. E passou a viver em Lisboa ou no Porto, no Inverno, nos meses mais benignos e de lida agrícola em Vilarinho de São Romão; até que, de um hidrotórax, se finou aos 14 de Março de 1862.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Não cabe aqui examinar o pensamento económico desta figura a muitos títulos excepcional, das mais injustamente esquecidas do seu tempo. O leitor interessado pode para isso recorrer proveitosamente, por exemplo, à biografia, que nem por ser de um sobrinho do biografado é menos isenta, de António Luís Ferreira Girão, Notícia Biográfica do Visconde de Vilarinho de São Romão, publicada no Porto, em 1870, pela Livraria da Viúva Moré.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Mal as tropas de Vila Flor-Terceira entraram em Lisboa, na manhã de 24 de Julho de 1833, Teixeira Girão apresentou-se a assentar praça. Mas logo a 28 o próprio D. Pedro o mandou chamar à fileira dos voluntários para lhe dar a incumbência, na qual se houve da melhor maneira e com rapidez que a todos espantou, de restabelecer o afluimento das águas a Lisboa, que os miguelistas em fuga tinham cortado danificando o aqueduto. Nomeado prefeito de Trás-os-Montes e em seguida transferido para a Estremadura, logo administrador da Casa Pia, que fez transferir de S. Lázaro para Belém, e inspector das Águas Livres e das fábricas anexas de louça e de seda, também seria restituído ao cargo, de que o tinham demitido em 1828, de provedor do Papel Selado. Em 1835, por decreto régio, foi feito visconde de Vilarinho de São Romão.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Liberal que já era e conhecido como tal, Teixeira Girão foi, na sequência da revolução de 1820, eleito por Trás-os-Montes deputado às Cortes Constituintes. Embora moderado nas suas intervenções, em 1823, sobrevindo a «viradeira», foram prendê-lo a Vilarinho e deportaram-no, na companhia do conterrâneo Manuel Gonçalves de Miranda, também deputado constituinte, para o Algarve. Em 1826, já livre, com a subida de D. Pedro IV ao trono, foi nomeado provedor do Papel Selado e de novo eleito deputado. Mas logo em 1828, com D. Miguel, voltaram as perseguições, e teve de se esconder em Lisboa, para não ir parar ao Limoeiro e a S. Julião da Barra. E foram estes, agora, os cinco anos e dois meses que passou homiziado, quase sempre escondido num desvão de telhado, período todavia o mais fecundo do seu trabalho intelectual, a avaliar pelas obras entretanto escritas e publicadas de 1833 a 1835: além das Histórias de Meninos, a Memória sobre os Pesos e Medidas de Portugal (1833), a já referida sobre a Companhia dos Vinhos (1833), outra sobre a economia do combustível (1834), A Química Ensinada em 26 Lições (1834), Economia Rural e Doméstica, ou Ensaio sobre os Gados Lanígero e Cornígero (2 volumes, 1835), e ainda, tornando, como tradutor, à poesia a que sacrificara antes, a Tradução Livre ou Imitação do Lutrin, ou Estante do Coro, de Boileau (1834). Acrescendo desenhos e pinturas, que nunca deu a conhecer publicamente, mas que fazia desde o tempo em que recebeu lições, em Mateus, de Correia de Matos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Como agricultor, o futuro Visconde de Vilarinho de São Romão nunca se conformou com seguir a rotina. Experimentando e lendo, procurou vencer o atraso dos nossos métodos explorativos, em especial no tocante à viticultura. E daí resultou, em 1822, dar a público a sua primeira grande obra, até há poucas décadas inultrapassada entre nós: o Tratado Teórico e Prático da Agricultura das Vinhas. Homem que sempre foi de à teoria juntar a prática, também conceberia e ofereceu à Academia Real das Ciências, que o recebeu entre os seus sócios, uma máquina de sua invenção, depois divulgada, cujo emprego na fabicação dos vinhos resultava num trabalho mais perfeito e em notável economia de tempo. O mesmo que veio a acontecer com outro seu invento técnico: a supressão do condensador e do balanceiro nas máquinas a vapor de Watt, resultando numa apreciável economia de força e, portanto, de combustível.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão, oitavo senhor e primeiro visconde de Vilarinho de São Romão, nasceu nesta freguesia do concelho transmontano de Sabrosa aos 5 de Novembro de 1785. Filho primogénito e, consequentemente, destinado, segundo o código da época, a suceder na administração de um vínculo a seu pai, teve a boa sorte de este não afinar pelo comum dos seus pares. António José Girão Teixeira Lobo de Barbosa era, de facto, um morgado diferente de quase todos os outros, dado a leituras aré menos ortodoxas, e não só ensinou ele mesmo as primeiras letras ao filho, como o mandou, aos treze anos, às aulas de um reputado mestre de latinidades que vivia perto, em Provesende. Chamava-se este António Pinheiro,e e, além de ensinar ao rapazinho gramática e latim, também lhe ministrou filosofia e retórica. Em 1804, passou António Pinheiro, na companhia de um tio, a Lisboa, e aqui continuou a estudar, aprendendo francês, italiano e inglês e iniciando-se nas ciências física e naturais. Como diz um dos seus biógrafos, A. M. Lopes de Carvalho, «estudou botânica em Lineu, Vandelli e Brotero e foi apaixonado discípulo do grande Buffon». Regressando a Trás-os-Montes, para se ocupar da rica lavoura familiar, ainda decidiu aprender, com um arquitecto de Mateus que se formara em Roma, Francisco Correia de Matos, desenho, geometria e as noções fundamentais de arquitectura. O mais de uma cultura sempre quanto possível em dia ia buscá-lo aos livros da biblioteca que herdara e acrescentava com o melhor do produzido lá fora.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos, do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Já identificado o contista das Histórias de Meninos, Nemésio ainda pensou escrever sobre ele e o seu livro esquecido não obstante as duas sucessivas edições de 1834 e 1835. Como também imaginou representá-lo, com o tal conto do frade prenhe, numa projectada antologia, da qual chegou a falar numa crónica, de contistas, como diria Manuel bandeira, bissextos: desses que, com livro ou até sem ele, uma vez lhes aconteceu, em tema e realização, o grande achado. Mas nem uma nem outra coisa chegou a fazer -- e é pena, pois um daqueles seus ensaios breves mas iluminantes, como os do Conhecimento da Poesia antes saídos em jornais, que valem, mesmo divagantes, o que para sempre nunca darão os logogrifos dos filhos apanhadiços do gálico galimata Sr. Roland Barthes, bem melhor calhava aqui, substituindo-me, à recuperação do Visconde de Vilarinho de São Romão como contista. Mas, como ele não o fez... Ao menos, cumpra-se o do seu a seu dono. Que naquele tempo em que Nemésio me deu conta do seu achado, persistindo eu embora, como até hoje, em procurar a agulha em palheiro dos nossos narradores do Neoclassicismo, não conhecia o autor das Histórias de Meninos senão os livros pelos quais, mas cada vez menos, vem sendo lembrado: como a Memória Histórica e Analítica sobre a Companhia dos Vinhos, Denominada da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, onde vão beber, nem sempre o dizendo, alguns de nome respeitado entre os estudiosos da história económica.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Prefácio a Histórias de Meninos do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

O seu a seu dono, não calhou a mim, mas a Vitorino Nemésio, a sorte do achamento. E fora, como me contou, que indo por aí uma tarde, e parando diante da mercadoria de um alfarrabista da rua, lhe aconteceu avistar no estendal um título que achou saboroso: Histórias de Meninos, para Quem não For Criança. Abaixou-se, pegou no livro, examinou-o a folhear, perguntou ao vendedor (talvez o seu amigo Evaristo, que antes tivera loja na Travessa da Queimada) quanto era. Sendo o preço razoável, ficou com ele. Já em casa, sentado a lê-lo, não tardou que desse por belamente aplicados os vinte ou pouco mais escudos do negócio. Pelo menos lá estava (não só!), no livro, cujo autor, nome omisso, se apresentava como um homiziado que sofreu o martírio de estar escondido cinco anos e dois meses» (o tempo da dura do reinado caceteiro desse que uma velha tia minha, pedrista assanhada, filha de um dos Mindelo com Torre e Espada ganha nas lides do cerco do Porto, chamava o Miguel da Carlota), lá estava, dizia, uma pequena obra-prima de humor: o conto do frade que se julgou prenhe.

domingo, 23 de novembro de 2008

Prefácio a História de Meninos do Visconde de Vilarinho de São Romão - Pedro da Silveira

Sempre me pareceu estranho, custoso de engolir como verdade total e definitiva, que antes do Romantismo, em todo o período de à roda de oitenta anos da vigência entre nós do gosto neoclássico, não houvéssemos tido, de prosa de ficção, senão O Feliz Independente do Mundo e da Fortuna (1779). E tanto mais estranho quanto ia notando o crescer, desde cerca de 1780, de um real apetite ledor pelos textos narrativos, qual mo mostravam as datas quer das traduções em português, quer das edições originais francesas e, menos, inglesas, que fui topando em velhas bibliotecas domésticas nos Açores e aqui. Um dia, encontrei a não menosprezável Verdadeira História dos Sucessos de Armindo e Florisa (1803), de Rodrigo Marques, máscara heteronímica de Filinto Elísio,e, mais tarde, avulsas adaptações de contos-fábulas por José Agostinho de Macedo e Fialho de Mendonça. E continuei, continuo ainda, convencido de mais haver na babel da edição portuguesa do Século das Luzes, estilisticamente e no fundo alongado até quando a vitória dos liberais se tornou, em 1834, facto irreversível. Só que as buscas, largadas e retomadas várias vezes, não resultavam: os livros não apareciam, nem sequer, tolhidos nisto pela Real Mesa Censória, manuscritos. Até que, vai em vinte e cinco anos...

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